12.26.2011

Ryōkan Daigu é uma das figurinhas mais lendárias e simpáticas do zen japonês; uma espécie de eremita e errante, um tanto avesso à vida sacerdotal, vivendo em sua cabaninha de telhado de palha. Nome de monge bem dado ("grande tolo com um bom coração"): Ryōkan gostava de tomar umas biritinhas com os camponeses da vizinha...nça, ou então sozinho, escrevendo poemas em sua cabana - pelos quais ficou conhecido, mais tarde. Também gostava de brincar com a criançada, e conta-se que muitas vezes esquecia de fazer a sua ronda de esmolas, de tão entretido que estava - e ficava sem comer. Seu professor realmente soube escolher um nome-do-dharma à altura. Estes são os "59 itens que Ryōkan compilou para ter o comportamento à altura de um monge budista, lembrando, como mestre Chao-chou dizia, o budismo não é o que a pessoa prega ou fala, mas o que faz. É notável que a maioria de suas auto-impostas advertências estão ligadas ao ato de falar [....]" "Tomar cuidado para: - não falar demais; - não falar rápido demais; - não falar sem alguém perguntar; - não falar gratuitamente; - não falar com as mãos; - não falar sobre assuntos mundanos; - não retorquir rudemente; - não discutir; - não sorrir condescendentemente às palavras de outros; - não usar expressões chinesas elegantes; - não se vangloriar; - evitar falar diretamente; - não falar com ar de quem sabe tude; - não pular de um tópico para outro; - não usar palavras enfeitadas ou pomposas; - não falar de eventos passados que não podem ser alterados; - não falar como um pedante; - evitar perguntas diretas; - não falar mal dos outros; - não falar grandiloquentemente da iluminação; - não fazer bagunça quando bêbado; - não falar de forma desprezível; - não gritar com crianças; - não tecer histórias fantásticas; - não falar quando zangado; - não deixar subentender nomes importantes; - não ignorar as pessoas a quem você está se dirigindo; - não falar santimonialmente dos deuses ou dos budas; - não usar discurso adocicado; - não usar discurso adulador; - não falar de coisas das quais você não tem conhecimento; - não monopolizar a conversa; - não falar de outros pelas costas deles; - não falar convencidamente; - não denegrir os outros; - não cantar rezas ostensivamente; - não reclamar da quantidade da doação; - não dar sermões muito eloquentes; - não falar afetadamente como um artista; - não falar afetadamente como um mestre do chá; - oferecer incenso e flores para os budas; - plantar árvores e flores, limpar e aguar o jardim; - regularmente usar moxa para as pernas; - evitar peixes oleosos; - selecionar comidas leves e evitar comidas gordurosas; - não dormir demais; - não comer demais; - não dar uma cochilada muito longa à tarde; - não ficar exausto; - não ser negligente; - não falar quando você não tiver nada a dizer; - não esconder nada em seu coração; - sempre beber o saquê quente; - raspar sua cabeça; - aparar as unhas; - escovar os dentes e usar um palito de dentes; - tomar banho; - manter sua voz clara e nítida." "[....] Mestre Ryōkan estava sempre esquecendo as coisas. Um número de cartas a seus amigos sobreviveu, cheia de desenhos de objetos que ele havia esquecido em algum lugar e lhes perguntando se eles haviam visto os objetos em questão. Às vezes ele mendigava na mesma casa, duas vezes no mesmo dia, tendo esquecido sua visita anterior e era repreendido pela dona da casa por ser cobiçoso. Aqui está uma outra lista que ele fez: Coisas para levar com você: chapéu de algodão, toalha, tecido, papel, leque, moedas, bolinhas de gude e bolas de jogar. Necessidades: chapéu de bambu, material para a perna (como uma meia), luvas, cinto, bastão, manto pequeno. Para peregrinações: roupas, capa de chuva de palha, tigela, saco. Lembrete: tenha certeza de ler isto antes de sair ou você vai ficar em apuros!" entre aspas: da revista Flor do Vazio, ano 7 vol. 1, verão de 2003; pg. 72

11.29.2011

Meditação

MEDITAÇÃO


por Dudjom Rinpoche



Uma vez que tudo se origina na mente, sendo esta a causa raiz de toda a experiência, seja "boa" ou "ruim", primeiro é necessário trabalhar com sua própria mente, não deixá-la se perder errantemente . Corte o desnecessário acúmulo de complexidade e fabricações que acolhem confusões na mente. Corte o problema pela raiz, por assim dizer.



Permita-se relaxar e sentir alguma amplitude, deixando apenas a mente ser, tranquilizar-se naturalmente. Seu corpo deveria ficar parado, a fala silenciosa e a respiração como ela é, fluindo livremente. Aqui, há uma sensação de se soltar, desdobrar-se, deixar-se ser.



Com o que este estado de relaxamento se parece? Você deveria ficar como alguém depois de um dia de trabalho muito duro, exausto e pacificamente satisfeito, a mente pronta para descansar. Algo se ajeita ao nível intestinal e sentindo o descanso em seu intestino, você começa a experimentar uma leveza. É como se você estivesse derretendo.



A mente é tão imprevisível - não há limite para a criação fantástica e sutil que surge, ou seus humores e aonde ela vai levar você. Mas você também pode experimentar um estado lamacento e semi-consciente à deriva, como se houvesse uma cobertura sobre sua cabeça - uma espécie de torpor de sonho. Este é um modo de quietude, nomeadamente estagnação, uma cegueira sem mente, turva.



E como você sai desse estado? Alerte-se, endireite as costas, expire o ar viciado para fora de seus pulmões e direcione sua atenção para o espaço claro a fim de trazer frescor. Se você permanecer nesse estado estagnado você não vai evoluir, por isso quando este revés surge, limpe-o de novo e de novo. É importante desenvolver a vigilância, permanecer alerta com sensibilidade.



Assim, a consciência lúcida de meditação é o reconhecimento tanto de imobilidade como de mudança e é a clareza tranquila de pacificamente permanecermos em nossa inteligência básica. Pratique isto, pois só realmente fazendo-o que se experiencia a fruição ou se começa a mudar.



Ver em Ação



Durante a meditação a mente de alguém, estando uniformemente estabelecida em seu próprio modo natural, é como água parada, serena, sem ondulação ou vento; e quando qualquer pensamento ou mudança surge naquela quietude, se forma como uma onda no oceano, desaparecendo nele novamente. Deixada naturalmente, se dissolve, naturalmente. Seja qual for a turbulência da mente que irrompa - se você deixar que assim seja - ela por si própria irá extinguir-se, liberar-se; assim a visão a que se chega através da meditação é que tudo o que aparece não é outra coisa senão a auto exibição ou projeção da mente.



Ao continuar na perspectiva dessa visão nas atividades e eventos da vida cotidiana, a apreensão da percepção dualista do mundo como realidade sólida, fixa e tangível (que é a causa raiz de nossos problemas) começa a afrouxar e se dissolve. A mente é como o vento. Ela vem e vai, e através de certeza crescente nessa visão, começa-se a apreciar o humor da situação. As coisas começam a ser percebidas um pouco como irreais, e o apego e a importância que se dá aos eventos começam a parecer ridículos ou pelo menos mais leves.



Assim desenvolve-se a capacidade de dissolver a percepção, ao continuar o fluxo da consciência de meditação na vida cotidiana, vendo tudo como o jogo auto-manifesto da mente. E imediatamente após a meditação sentada, a continuação dessa consciência é ajudada ao fazer aquilo que você tem que fazer com calma, tranquilamente, com simplicidade e sem agitação



Assim, em um sentido, tudo é como um sonho, ilusório, mas mesmo assim com humor continua-se fazendo as coisas. Se você estiver andando, por exemplo, sem solenidade ou auto-consciência desnecessários, alegremente caminhe em direção ao espaço aberto da verdade tal como ela é. Quando você come seja o reduto da verdade, do que é. Ao comer, alimente as negatividades e ilusões na barriga do vazio, dissolvendo-os no espaço; e quando você estiver urinando considere que todos os seus obscurecimentos e bloqueios estão sendo limpos e lavados.



Até o momento eu contei-lhes a essência da prática resumidamente, mas é preciso perceber que enquanto nós continuamos a ver o mundo de uma maneira dualista, até que estejamos realmente livres do apego e da negatividade e tenhamos dissolvido todas as nossas percepções exteriores na pureza da natureza vazia da mente, ainda estamos presos no mundo relativo de "bom" e "ruim", "ações positivas e negativas"; devemos respeitar essas leis e estar conscientes e responsáveis por nossas ações.



Pós-Meditação



Após a meditação sentada formal continue essa percepção luminosa e ampla nas atividades cotidianas, em tudo, e gradualmente a consciência será reforçada e a confiança interna irá crescer.



Levante-se com calma da meditação, não pule imediatamente ou com pressa, mas seja qual for sua atividade, preserve um leve sentimento de dignidade e equilíbrio e faça o que você precisar fazer com tranquilidade e relaxamento de mente e corpo. Mantenha a sua consciência centrada luminosamente e não permita que sua atenção se distraia. Continue esse encontro do fio da atenção plena e consciência, apenas siga o fluxo.



Ao caminhar, sentar, comer ou dormir, tenha um sentido de tranqüilidade e presença de espírito. Em relação a outras pessoas seja honesto, gentil e simples; geralmente seja agradável em seus modos e não se deixe arrastar por conversas e fofocas.



O que quer que você faça, de fato, faça de acordo com o Darma, que é a maneira de aquietar a mente e subjugar negatividades.

11.26.2011

father Death Blues

Father Death Blues


Hey Father Death, I'm flying home

Hey poor man, you're all alone

Hey old daddy, I know where I'm going



Father Death, Don't cry any more

Mama's there, underneath the floor

Brother Death, please mind the store



Old Aunty Death Don't hide your bones

Old Uncle Death I hear your groans

O Sister Death how sweet your moans



O Children Deaths go breathe your breaths

Sobbing breasts'll ease your Deaths

Pain is gone, tears take the rest



Genius Death your art is done

Lover Death your body's gone

Father Death I'm coming home



Guru Death your words are true

Teacher Death I do thank you

For inspiring me to sing this Blues



Buddha Death, I wake with you

Dharma Death, your mind is new

Sangha Death, we'll work it through



Suffering is what was born

Ignorance made me forlorn

Tearful truths I cannot scorn



Father Breath once more farewell

Birth you gave was no thing ill

My heart is still, as time will tell.





Allen Ginsberg

A você que está reclamando todo o tempo de não ter nenhum tempo”

A você que está reclamando todo o tempo de não ter nenhum tempo”


Por Sawaki Kôdô Rôshi



As pessoas se mantém ocupados só para evitar o tédio.



Todo mundo reclama que estão tão ocupados que não tem tempo nenhum. Mas porque eles estão tão ocupados? São apenas suas ilusões que os mantém ocupados. Uma pessoa que pratica zazen (meditação) tem tempo. Quando você pratica zazen, você tem mais tempo que todos do mundo.



Se você não for cuidadoso, você começará a fazer um grande escarcéu só para alimentar você mesmo. Você está constantemente com pressa, mas por que? Só para alimentar você mesmo. As galinhas também estão com pressa quando chegam às suas comidas. Mas por que? Apenas para ser comidas por humanos.



Quantas ilusões uma pessoa cria em sua vida? É impossível calcular. Dia vai, dia vem, “Eu quero isso, eu quero aquilo…” Uma simples volta no parque é acompanhada por 50 mil, 100 mil ilusões. Então é isso que significa estar “ocupado”. “Quero estar com você, quero chegar em casa, quero ver você…”



As pessoas estão constantemente sem ar – de correr tão rapidamente atrás de suas ilusões.



Você quer alcançar o nirvana para estar liberado da sua vida atual? Esta é a exatamente a atitude que é chamada de “transmigração”.



O desenvolvimento do transporte tornou o mundo menor. Agora corremos em carros, mas pra onde afinal? Para a corrida! Pisamos no acelerador, só pra matar tempo”.

10.06.2011

em homenagem a Steve Jobs

"Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encon...trei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo - expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar - caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Não há razão para não seguir o seu coração.




Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração." Steve Jobs

9.14.2011

Kodo Sawaki

“Antes que eu penetrasse no Zen,

as montanhas nada mais eram senão montanhas

e os rios nada a não ser rios.

Quando aderi ao Zen,

as montanhas não eram mais montanhas

nem os rios eram rios.

Mas, quando compreendi o Zen,

as montanhas eram só montanhas

e os rios, só rios”



(Sentença Zen)







O grande mestre espiritual, Thomas Merton (1915-1968), dizia que o Zen é “uma das mais misteriosas de todas as espiritualidades”. Mais que uma filosofia ou religião, o Zen é uma “trama existencial”, uma disposição particular, de fundo, com respeito à vida e ao tempo. Trata-se de um modo peculiar de proceder, eminentemente prático, que envolve uma atenção singular ao real, à vida, em toda a sua tessitura concreta e existencial, e a todo instante. Está profundamente vinculado às atividades do dia a dia, descortinando uma “percepção plena do dinamismo e da espontaneidade da vida”.



São muitos os místicos e mestres Zen que animaram a nossa trajetória civilizacional, apontando rumos diferenciados que envolvem delicadeza, cuidado e generosidade. Um dos importantes nomes dessa tradição espiritual foi Kodo Sawaki (1880-1965), conhecido como um “mosteiro itinerante”. Viveu a experiência da impermanência (mujo) desde cedo, tendo perdido os pais em tenra idade. Veio adotado por Sawaki, um irmão de sua mãe, daí a derivação de seu nome, que veio depois acrescentado de Kodo, adquirido por ocasião de sua ordenação como monge. Um nome bem apropriado para o pequeno mestre. Kodo significa “sem casa”. De fato, essa condição de “impermanência” o acompanhou durante toda a sua vida. Afirmava não necessitar de casa, templo, títulos ou mulheres. Nem mesmo de iluminação (satori). A itinerância era a sua morada. Foi um mestre singular, que acolhia, indistintamente, a todos que o procuravam, e tinha o dom da palavra. Ele dizia: “Falo sempre com força e com todo o coração. Em cada palavra ou frase a minha mente e o meu corpo, a minha carne e o meu sangue revelam-se completamente”.



Sua grande inspiração veio de Eihei Dôgen (1200-1253), fundador do Soto Zen no Japão. Para Dôgen, a prática do Zazen (meditação sentada) era a porta da real compreensão do caminho espiritual (Dharma). Dizia a seus discípulos: “Muitos imaginam que é a multiplicação das imagens do Buda ou a elevação de templos que favorecem a expansão do Caminho. Trata-se de um grave erro. Uma choupana ou a sombra de uma árvore são suficientes para a prática do Zazen”. Visando orientar seus discípulos, escreveu entre os anos 1231 e 1253, uma das mais célebres obras de espiritualidade, o shôbôgenzô (o tesouro da visão do verdadeiro dharma). O horizonte almejado era o Dharma de Buda, que se revela em todas as coisas. Escrevia a respeito Dôgen: “Na grande via do Dharma de Buda, um só grãozinho de pó contém todos os sutras do universo”. Esse foi o mestre que pontuou toda a trajetória de Kodo Sawaki. E os mestres são fundamentais para o exercício de realização do Dharma, como o próprio Dôgen reconhecia: “Se não encontras um verdadeiro mestre, é melhor não estudar com efeito o budismo”. É o mestre que favorece a escuta do verdadeiro Dharma.



Na trilha aberta por Dôgen, Kodo Sawaki segue o seu caminho, marcado por um significativo lema: viver a vida cotidiana. Trata-se de um lema recorrente no budismo Zen. Outro dos grandes mestres desta tradição budista, Lin Chi, que morreu no ano de 867, dizia num de seus discursos que não há nada de extraordinário a ser cumprido no budismo, senão viver simplesmente a vida. Em mesma linha de sintonia, dirá o conhecido mestre Daisetz Teitaro Suzuki, um dos introdutores do Zen no Ocidente: “O Zen é viver, o Zen é a vida e viver é Zen”. Num dos ditos clássicos da tradição Zen, de autoria de Wou-men (Wou-men-kouan – Passe sans porte), afirma-se que “o coração cotidiano é o Caminho”. É o rastro que seguiu Sawaki em sua existência e prática, levar a vida com consciência e atenção. Mediante a prática contínua do Zazen, desvendar a maravilha do cotidiano, vivido com gratuidade (mushotoku) e respeito. Para ele, a razão da vida não estava em acumular conhecimentos, mas na atenção diuturna e cuidadosa diante do mistério apresentado a cada momento ao olhar humano. Dizia: “Os homens multiplicam conhecimentos, mas penso que o fim almejado está em poder sentir o som dos vales e olhar as cores da montanha”.



Na tradição budista, todo o acento recai na realidade fenomênica. A reverência feita a uma camélia em flor tem a mesma densidade espiritual que outros atos religiosos como a inclinação feita aos budas. Como mostrou acertadamente, Toshihiko Izutsu, em sua reflexão sobre a filosofia do zen budismo, “o mundo fenomênico não é só a ordem das coisas sensíveis que aparece ao ego empírico ordinário, mas na consciência zen ele vem dotado de uma espécie particular de poder dinâmico que poderia ser adequadamente indicado com o verbo VER”. Desvela-se um olhar que descortina uma dimensão excepcionalmente elevada, para além da atividade discriminante traduzida pelo intelecto relativo do ser humano encerrado na limitada esfera da experiência comum e ordinária. As montanhas manifestam-se como montanhas e os rios como rios.



A verdade está aí, no alcance da visão. Basta saber ver. Ela está em todo canto e em cada coisa. Essa era uma máxima seguida com rigor por Sawaki. A prática do Zazen facultava a educação desse olhar, capaz de captar a profunda unidade que liga o ser humano a todo o universo e a todo o criado. No Zazen deixa-se abandonar o corpo e a mente (shin jin datsu raku), facultando-se o “fluir com a infinita luminosidade” que a todos sustenta. É o caminho que faculta o acesso à subjetividade elemental, à pura subjetividade, para além das dicotomias entre sujeito e objeto. Este deixar cair corpo e mente, na prática do “só-Zazen”, não significa um abandono ou exclusão da existência histórica e social. Esse é um equívoco que deve ser extirpado. Na verdade, o Zazen verdadeiro situa o ser humano ainda mais fundo no seu cotidiano, colocando em ação um modo singular de ser no mundo, facultando a “encarnação auto-criativa e auto-expressiva da natureza-de-Buda”. A consciência de “impermanência” não leva de forma alguma a uma perspectiva de fatalismo ou pessimismo diante da vida, mas a uma “vitalidade sempre maior na busca do Caminho”.



O horizonte apontado por Kodo Sawaki é o mesmo indicado por Dôgen em seu shôbôgenzô: o abandono de si e a doação aos outros. Há que romper todos os apegos e viver a profunda dinâmica da gratuidade, sem finalidade ou escopo (mushotoku). E estar sempre a caminho, sem morada fixa, com o olhar aberto e atento ao mundo da alteridade. Num dos fascículos de seu clássico trabalho, Dôgen asseverava: “Compreender o Caminho de Buda é compreender a si mesmo (jiko); compreender a si mesmo é esquecer a si mesmo; esquecer a si mesmo é deixar-se abrigar por todas as coisas (banpô ni shô seraruru) (...)”. Em profunda sintonia com a perspectiva kenótica proposta por Dôgen, Kodo Sawaki reconheceu de forma profunda como o reconhecimento da impermanência de todas as coisas gera gratuidade e doação. Como sublinhou Gianpetro Fazion, em bela obra sobre o Zen de Kodo Sawaki (Roma, 2003), a “ampla visão da impermanência e do sofrimento universal (duhkha), profundamente penetrada pelo olhar de Buda, favoreceu-lhe (a Sawaki) a capacidade de partilhar uma compaixão amorosa por todas as formas de vida”. Num dos ditos de Sawaki, ele sublinha: “Se alguém abandona o próprio ego, sem pensar em si mesmo, se ele serve, e se devota aos outros, ainda que através de pequenas coisas, como cozinhar na manhã, isto é verdadeiramente grande”. A nobreza verdadeira está justamente nesses pequenos detalhes do cuidado, da delicadeza e do serviço aos outros.



Kodo Sawaki foi um grande mestre Zen, mesmo sem a cobertura de uma formação acadêmica tradicional. Tinha apenas o diploma da escola elementar. Sua linguagem era simples, forte e direta, nutrida pela permanente prática do Zazen. Muitos passaram por sua escola, entre os quais Taisen Deshimaru, que introduziu o Zen na França, no final dos anos 1960. De seus traços espirituais, brilha de forma especial a dinâmica da gratuidade absoluta. Seus ditos guardam uma sabedoria exemplar, como o que segue: “A vida é complicada. Há momentos, como na guerra, onde o fogo cai do céu, e outros onde podemos adormecer, aconchegados, junto à lareira. Há períodos nos quais necessitamos trabalhar mesmo de noite, e outros em que se pode beber o sakê. Buscar realizar essa vida, mediante o ensinamento de Buda, isto é o budismo”.



Ao final da vida, já aos 85 anos, voltou seu olhar para o monte Tagakamine. Esse monte tinha sido objeto de suas observações durante muito tempo, mas agora seu olhar voltava-se para ele com particular intensidade. Ele agora o Via, e parecia indicar a presença do empíreo. Três dias antes de sua morte, no mês de dezembro de 1965, pediu que abrissem a janela de sua cela e disse: “Olha a montanha. A natureza é grande, enquanto os homens ocupam-se de pequenas coisas: em toda a minha vida não encontrei um modo de admirá-la completamente. Mas aquela Tagakamine me observa, do alto de sua grandeza, e parece dizer: ´Kodo, Kodo!`”.

9.13.2011

“Essentials of Spontaneous Prose” (1958)

“Essentials of Spontaneous Prose” (1958)


SET-UP The object is set before the mind, either in reality, as in sketching (before a landscape or teacup or old face) or is set in the memory wherein it becomes the sketching from memory of a definite image-object.

PROCEDURE Time being of the essence in the purity of speech, sketching language is

undisturbed flow from the mind of personal secret idea-words, blowing (as per jazz musician) on

subject of image.

METHOD No periods separating sentence-structures already arbitrarily riddled by false

colons and timid usually needless commas but the vigorous space dash separating rhetorical

breathing (as jazz musician drawing breath between outblown phrases) “measured pauses which

are the essentials of our speech” “divisions of the sounds we hear” “time and how to note it

down.” (William Carlos Williams)

SCOPING Not “selectivity” of expression but following free deviation (association) of

mind into limitless blow-on-subject seas of thought, swimming in sea of English with no discipline

other than rhythms of rhetorical exhalation and expostulated statement, like a fist coming down

on a table with each complete utterance, bang! (the space dash)Blow as deep as you

wantwrite as deeply, fish as far down as you want, satisfy yourself first, then reader cannot fail

to receive telepathic shock and meaning-excitement by same laws operating in his own human

mind.

LAG IN PROCEDURE No pause to think of proper word but the infantile pileup of

scatological buildup words till satisfaction is gained, which will turn out to be a great appending

rhythm to a thought and be in accordance with Great Law of timing.

TIMING Nothing is muddy that runs in time and to laws of time Shakespearian stress of

dramatic need to speak now in own unalterable way or forever hold tongue no revisions (except

obvious rational mistakes, such as names or calculated insertions in act of not writing but

inserting).

CENTER OF INTEREST Begin not from preconceived idea of what to say about image

but from jewel center of interest in subject of image at moment of writing, and write outwards

swimming in sea of language to peripheral release and exhaustion Do not afterthink except for

poetic or P. S. reasons. Never afterthink to “improve” or defray impressions, as. the best writing

is always the most painful personal wrungout tossed from cradle warm protective mind tap from

yourself the song of yourself, blow! now! your way is your only way “good” or

“bad always honest, (“ludicrous”), spontaneous, “confessional” interesting, because not

“crafted.” Craft is craft.

STRUCTURE OF WORK Modern bizarre structures (science fiction, etc.) arise from

language being dead, “different” themes give illusion of “new” life. Follow roughly outlines in

outfanning movement over subject, as river rock, so mindflow over jewel-center need (run your

mind over it, once) arriving at pivot, where what was dim-formed “beginning” becomes sharp—

necessitating “ending” and language shortens in race to wire of time-race of work, following laws

of Deep Form, to conclusion, last words, last trickle Night is The End.

MENTAL STATE If possible write “without consciousness” in semitrance (as Yeats’ later

“trance writing”) allowing subconscious to admit in own uninhibited interesting necessary and so

“modern” language what conscious art would censor, and write excitedly, swiftly, with writing-or-

typing-cramps, in accordance (as from center to periphery) with laws of orgasm, Reich’s

“beclouding of consciousness.” Come from within, out to relaxed and said.

Jack Kerouac, “Essentials of Spontaneous Prose” in Ann Charters, ed., The Portable Beat Reader (New York: Viking, 1992).





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8.29.2011

Gary Snyder


Passar um tempo com sua própria mente é algo humilde e expansivo. Descobrimos que não há ninguém no comando, e somoslembrados de que nenhum pensamento dura muito. As marcas dos ensinamentos budistas são a impermanência, a ausência de ego, a inevitabilidade do sofrimento, a interconexão, a vacuidade, a vastidão da mente e a oferta de um Caminho para a realização. Um poema acabado, como uma vida exemplar, é uma breve apresentação, algo único na singularidade, uma expressão completa, e um tipo de troca de presentes nas redes da mente-energia. Na peça no Basho (Bananeira), diz-se que “toda poesia e toda arte são oferendas para o Buda”. Essas várias ideias budistas, em conjunto com o antigo sentido chinês de poesia, são parte da trama que produziu uma simplicidade elegante, a que damos o nome de estética zen.
Tu Fu disse: “As ideias de um poeta deveriam ser nobres e simples”. Nos círculos Ch’an se dizia: “Pessoas incultas deliciam-se no estardalhaço e na novidade. Pessoas cultas deliciam-se no comum”. Essa simplicidade, essa realidade comum, é o que os budistas chamam de quididade, ou tathata. Não há nada especial na realidade, porque ela está toda exatamente aqui. Não é preciso chamar atenção para ela, apresentá-la vividament e exibi-la. Portanto, o tema derradeiro de uma poesia budista “mística” é profundamente comum. Essa elusiva realidade comum que é tão tocante e refrescante, toda revolvida em imaginação e linguagem, é o trabalho de todas as artes. (Os poemas realmente belos são talvez os invisíveis, que não exibem nenhum insight especial, nenhum beleza notável. Mas em verdade ninguém nunca escreveu um grande poema que perfeitamente não tivesse nenhum insight, nenhum desdobramento instrutivo, nenhum prazer sintático — este é apenas um ideal distante.)
Assim, nunca haverá um único tipo identificável de “poesia meditativa”. Apesar do elegante e algo decadente ideal da Simplicidade Zen, o estardalhaço, a novidade e a vulgaridade entusiasmada também são completamente reais. Olhos arregalados, línguas para fora, entradas arrebatadoras, palmas e uivos — todos fazem parte da tradição da prática. E nunca haverá — é o que devotamente se espera — um estilo final e exclusivo de budismo. Continuo buscando poemas que veem o momento, que brincam livremente com o que é dado,
Teasing the demonic
Wrestling the wrathful
Laughing with the lustful
Seducing the shy
Wiping dirty noses and sewing torn shirts
Sending philosophers home to their wives in time for dinner
Dousing bureaucrats in rivers
Taking mothers mountain climbing
Eating the ordinary

[Fazendo graça com o demoníaco
Lutando com o irado
Gargalhando com o sensual
Seduzindo o tímido
Limpando o nariz sujo e costurando camisas rasgadas
Mandando filósofos para casa com suas mulheres a tempo para o jantar
Afogando burocratas nos rios
Levando mães para escalar montanhas
Comendo o comum]
apreciando que tanto possa ser feito neste precioso planeta do samsara.
Texto adaptado da introdução a Beneath a Single Moon: Legacies of Buddhism in Contemporary American Poetry. © Gary Snyder. Leia o texto completo em D/A Magazine