4.23.2013

A atitude da mente alerta

A ATITUDE DA MENTE ALERTA

MEDITAÇÃO
por Dudjom Rinpoche

Uma vez que tudo se origina na mente, sendo esta a causa raiz de toda a experiência, seja “boa” ou “ruim”, primeiro é necessário trabalhar com sua própria mente, não deixá-la se perder erraticamente. Corte o desnecessário acúmulo de complexidade e fabricações que acolhem confusões na mente. Corte o problema pela raiz, por assim dizer.

Permita-se relaxar e sentir alguma amplitude, deixando apenas a mente ser, tranqüilizar-se naturalmente. Seu corpo deveria ficar parado, a fala silenciosa e a respiração como ela é, fluindo livremente. Aqui, há uma sensação de se soltar, desdobrar-se, deixar-se ser.

Com o que este estado de relaxamento se parece? Você deveria ficar como alguém depois de um dia de trabalho muito duro, exausto e pacificamente satisfeito, a mente pronta para descansar. Algo se ajeita ao nível abdominal e sentindo o descanso em seu abdômen, você começa a experimentar uma leveza. É como se você estivesse derretendo.

A mente é tão imprevisível – não há limite para a criação fantástica e sutil que surge, ou seus humores e aonde ela vai levar você. Mas você também pode experimentar um estado sonolento e semi-consciente à deriva, como se houvesse uma cobertura sobre sua cabeça – uma espécie de torpor de sonho. Este é um modo de quietude, chamado de estagnação, uma cegueira sem mente, turva.

E como você sai desse estado? Alerte-se, endireite as costas, expire o ar viciado para fora de seus pulmões e direcione sua atenção para o espaço claro a fim de trazer frescor. Se você permanecer nesse estado estagnado você não vai evoluir, por isso quando este estado surge, limpe-o de novo e de novo. É importante desenvolver a vigilância, permanecer alerta com sensibilidade.

Assim, a consciência lúcida da meditação é o reconhecimento tanto da imobilidade como da mudança e é a clareza tranqüila de permanecermos pacificamente em nossa consciência básica. Pratique isto, pois só assim realmente experienciamos a fruição e começamos a mudar.

Ver em Ação

Durante a meditação a mente de alguém, estando uniformemente estabelecida em seu próprio modo natural, é como água parada, serena, sem ondulação ou vento; e quando qualquer pensamento ou mudança surge naquela quietude, se forma como que uma onda no oceano, que desaparece nele novamente. Deixada naturalmente, se dissolve, naturalmente. Seja qual for a turbulência da mente que irrompa – se você deixar que seja assim – ela por si própria irá extinguir-se, liberar-se; então a visão a que se chega através da meditação é que tudo o que aparece não é outra coisa senão a auto exibição ou projeção da mente.

Ao continuar na perspectiva dessa visão nas atividades e eventos da vida cotidiana, a apreensão da percepção dualista do mundo como realidade sólida, fixa e tangível (que é a causa raiz de nossos problemas) começa a afrouxar e se dissolve. A mente é como o vento. Ela vem e vai, e através da certeza crescente nessa visão, começa-se a apreciar o humor da situação. As coisas começam a ser percebidas um pouco como irreais, e o apego e a importância que se dá aos eventos começam a parecer ridículos ou pelo menos mais leves. 

Assim desenvolve-se a capacidade de dissolver a percepção, ao continuar o fluxo da consciência meditativa na vida cotidiana, vemos tudo como o jogo auto-manifesto da mente. E imediatamente após a meditação sentada, a permanência nessa consciência ajuda a fazer aquilo que você tem que fazer com calma, tranquilamente, com simplicidade e sem agitação.

Assim, em certo sentido, tudo é como um sonho, ilusório, mas mesmo assim continua-se, com bom humor fazendo as coisas. Se você estiver andando, por exemplo, sem solenidade ou auto-consciência desnecessários, alegremente caminhe em direção ao espaço aberto da verdade tal como ela é. Quando você come seja o reduto da verdade, do que é. Ao comer, alimente as negatividades e ilusões na barriga do vazio, dissolvendo-os no espaço; e quando você estiver urinando considere que todos os seus obscurecimentos e bloqueios estão sendo dissolvidos e lavados.

Até o momento eu falei sobre a essência da prática resumidamente, mas é preciso perceber que enquanto continuarmos a ver o mundo de uma maneira dualista, até que estejamos realmente livres do apego e da negatividade e tenhamos dissolvido todas as nossas percepções exteriores na pureza da natureza vazia da mente, ainda estaremos presos ao mundo relativo de “bom” e “ruim”, “ações positivas e negativas”; devemos respeitar essas leis e estar conscientes e responsáveis por nossas ações.

Pós-Meditação

Após a meditação sentada formal continue essa percepção luminosa e ampla nas atividades cotidianas, em tudo, e gradualmente a consciência será reforçada e a confiança interna irá crescer.

Levante-se com calma da meditação, não pule imediatamente ou com pressa, mas seja qual for sua atividade, preserve um leve sentimento de dignidade e equilíbrio e faça o que você precisar fazer com tranqüilidade e relaxamento de mente e corpo. Mantenha a sua consciência centrada luminosamente e não permita que sua atenção se distraia. Mantenha esse encontro da atenção plena e consciência, apenas siga o fluxo.

Ao caminhar, sentar, comer ou dormir, tenha um sentido de tranqüilidade e presença da mente. Em relação a outras pessoas seja honesto, gentil e simples; geralmente seja agradável em seus modos e não se deixe arrastar por conversas, pontos de vista conflitantes e fofocas.

O que quer que você faça, de fato, faça de acordo com o Dharma, que é a melhor maneira de aquietar a mente e subjugar negatividades.

4.11.2013

Dicas do Kerouac para escrever

http://revistalingua.uol.com.br/textos/79/artigo259329-1.asp

Parece ser uma moda hoje em dia, em sites da internet, artigos de revistas, livros inteiros: listas de conselhos ou dicas para escritores, em geral formulados por autores famosos.

Os tipos de conselho variam muito. Alguns se referem a aspectos práticos: como arrumar a escrivaninha, como organizar os manuscritos, como manter anotações, pesquisas, etc. Outros são conselhos estilísticos, sobre o que se deve ou não se deve colocar numa frase. Ou então conselhos sobre a estrutura de um romance, o desenvolvimento dos personagens, a manipulação do enredo. Enfim: parece não haver nenhum aspecto da escrita sobre o qual não se possa encontrar hoje não apenas manuais inteiros, mas uma quantidade enorme de pequenas dicas que de fato podem ser muito úteis. Principalmente para o autor jovem ou principiante.

Encontrei uma lista assim, elaborada por Jack Kerouac, o autor do clássico romance beatnikOn the Road (traduzido no Brasil como Pé na Estrada). Kerouac era um escritor intuitivo, não muito dado a cerebralismos. Reza a lenda que On the Road foi escrito num único rolo de papel de jornal, que ele enfiou na máquina da escrever e foi usando e desenrolando até terminar o livro, para não perder tempo tirando a página escrita e colocando outra em branco. Isso dá uma medida do grau de espontaneidade que ele procurava. E do quanto essa espontaneidade era frágil, um encantamento que podia ser quebrado por um gesto tão simples e automático quanto o de trocar de lauda.

Intuição
A adaptação do livro para o cinema, pelo brasileiro Walter Salles, com Kristen Stewart (Crepúsculo) encabeçando o elenco, terá seu lançamento mundial no Festival de Cannes em maio, no qual concorre à Palma de Ouro, e estreia no Brasil em 8 de junho. É uma oportunidade de apreciar a obra e um bom pretexto para olhar com atenção os conselhos de Kerouac, que podem ser vistos integralmente no site de Língua, para os que leem inglês, e também estão disponíveis emwww.harbour.sfu.ca/~hayward/UnspeakableVisions/misc/kerouacessentials.html
Não comentarei todos por falta de espaço (são 30 itens). E também porque há alguns que não entendo, embora me pareçam bastante poéticos: "Escritor-diretor de filmes terrenos patrocinados e angelizados no Paraíso". Parece ser uma soma final (é a última dica) do que ele pretendia ser como autor. 

Em todo caso, Kerouac é capaz de conselhos de ordem prática que considero bastante sensatos, como: "Tente nunca ficar bêbado fora de casa". Dicas de método criativo: "Rabisque em cadernos secretos de anotações, ou páginas datilografadas sem método, apenas para seu próprio prazer". Eu diria que a maioria das coisas que ele prega não se dirige a escritores inexperientes, mas a escritores bitolados por excesso de prática (ou por excesso de teoria, que bitola muito mais). 

Como os beatniks em geral, Kerouac queria libertar a energia criativa pura que torna o ato de pensar e o ato de escrever uma única coisa. Daí suas advertências: "Remova suas inibições literárias, gramaticais e sintáticas". "Tiques visionários estremecendo no peito". "As indizíveis visões do indivíduo". "Lute para esboçar o fluxo que já existe, intacto, na sua mente". "Compor de maneira selvagem, indisciplinada, pura, vinda de baixo, quanto mais louca melhor".  

São anticonselhos - justamente o contrário do que vemos na maioria dos manuais de redação. Por quê? Imagino que os manuais se destinam aos autores inexperientes, que são só intuição, desejo, vontade inarticulada de se exprimir; e essa vontade precisa ser disciplinada através de técnicas frias, objetivas, que ponham ordem na casa, isto é, na mente criadora. Kerouac parece estar se dirigindo a escritores já calejados, cheios de malandragens da profissão mas esvaziados de 
fogo criativo. 

ExortaçõesSeus conselhos não são meras exortações retóricas. Alguns são muito perceptivos: "Algo que você sente encontrará sua própria forma".  Creio que ele não se refere ao vago e frouxo "sentir" de quem está meramente com vontade de escrever alguma coisa, mas a um sentimento profundo, urgente, que se transforma numa força irreprimível. Se houver concentração e intensidade, a forma acabará surgindo. 

Certas dicas dele deveriam ser escritas na parede, com pincel grosso: "Não pense em palavras quando ficar bloqueado; procure enxergar melhor a cena". 

Um erro bastante frequente de quem escreve é tentar sair de um atoleiro ou de um "branco" criativo iniciando uma frase, depois outra, outra e mais outra... E todas vão ficando incompletas. O ideal é esquecer a página e se concentrar basicamente na visualização do que está acontecendo na história, para que se possa descobrir um ângulo interessante para mostrar isso, e assim as palavras virão como consequência.

Jack Kerouac diz algumas coisas que são, digamos, mais reflexões espirituais do que propriamente recomendações técnicas literárias com aplicação objetiva. 

"Acredite no contorno sagrado da vida". "Aceite a perda, para sempre". "Apaixone-se por sua vida", entre outras. Mas a quem esse tipo de conselho poderia ser útil? Talvez a pessoas que não têm nada de importante ou relevante acontecendo em si mesmas. 

Esvaziamento
Pessoas para quem escrever é um simples pretexto para publicar um livro, ver sua foto no jornal, dar um coquetel, distribuir autógrafos, fazer-se entrevistar... A obra literária, em si, é uma tarefa chata que precisa ser cumprida, porque sem ela o resto não acontece. O mundo está cheio de escritores assim.

"Apaixonar-se por sua vida", aliás, é um bom conselho para quem quer escrever, e curiosamente não implica vaidade ou narcisismo, mas sim um esvaziamento do ego. 

O grande escritor é aquele que acha a vida algo maior que ele próprio, algo digno de ser escrito; e que acha que o livro que está escrevendo é mais importante do que ele, que o escreve. 

Jack Kerouac foi um escritor que conseguiu ser menor do que os livros que escreveu, e esses conselhos mostram como alcançou essa forma zen de grandeza.


Braulio Tavares é compositor, autor de Contando Histórias em Versos (Editora 34, 2005).btavares13@terra.com.br

Dissolver a auto-importância


A ideia fixa que temos de nós mesmos como sólidos e separados uns dos outros é dolorosamente limitadora. É possível se mover dentro do drama de nossas vidas sem acreditar tão fervorosamente no papel que desempenhamos.
Levar-nos tão a sério, e nos dar tanta importância em nossas próprias mentes, é um problema para nós; nos sentimos justificados em ficar irritados com tudo, nos sentimos justificados em nos autodenegrir ou em achar que somos mais espertos que as outras pessoas.
A auto-importância nos machuca, limitando-nos ao estreito mundo de nossos gostos e desgostos. Terminamos morrendo de tédio com nós mesmos e nosso mundo. Terminamos nunca satisfeitos.
Temos duas alternativas: ou questionamos nossas crenças ou não. Ou aceitamos nossas versões fixas sobre a realidade, ou começamos a desafiá-las. Na opinião do Buda, treinar em permanecer aberto e curioso — treinar em dissolver nossas suposições e crenças — é o melhor uso para nossas vidas humanas.
“The Pocket Pema Chodron
(Weekly quotes from Pema Chodron, 2012-12-19)

3.24.2013


..linguagem é o fluxo mental tranquilo de ideias palavras pessoais secretas, improvisado (como o músico de jazz) sobre o tema da imagem,nenhuma pontuação, mas o vigoroso traço separando a respiração retórica (como o músico de jazz tomando fôlego entre duas frases), pausas marcadas que são a essência da nossa fala. Improvise tão fundo quanto quiser, escreva tão fundo, procure tão longe quanto quiser, satisfaça primeiro a si mesmo e o leitor também receberá o choque telepático e o significado-excitação pelas mesmas leis que operam na sua mente." – Jack Kerouac

3.20.2013

O treinamento da mente no cotidiano


O treinamento da mente no cotidiano

S. Ema. Chagdud Tulku Rinpoche
O budismo é uma tradição espiritual e filosófica que, por quase 3.000 anos, tem capacitado praticantes a eliminar os venenos e hábitos negativos da mente e revelar a sua natureza pura e absoluta.
A natureza básica da mente é como ouro puro, mas a sua pureza inerente não é óbvia, pois está coberta por uma mescla de emoções conflitantes, circunstâncias cármicas, obscurecimentos intelectuais e hábitos.Essas camadas não refinadas, como minério que contém ouro, precisam ser removidas para que a essência pura do nosso ser, o ouro elementar, seja revelada.
Nosso nascimento humano nos oferece a oportunidade de empreender esse processo de purificação e descobrir o amor, a compaixão, a equanimidade e a alegria que surgem espontaneamente da natureza fundamental da mente.
Se examinarmos nossas vidas, veremos que a real insatisfação, angústia e mal-estar que experimentamos não são causados por condições externas, mas pela forma como reagimos interiormente a elas. Não podemos negar que as condições externas difíceis existem, mas precisamos reconhecer que alguém com algum controle sobre os processos internos da mente não vivencia a mesma impotência e sofrimento face às perdas, adversidades e doenças, comparado a uma pessoa cuja mente não foi treinada.
Sei disso por experiência própria, pois meu país, o Tibete, foi perdido para os invasores comunistas, completamente hostis às nossas tradições culturais e espirituais. Muitos grandes mestres morreram de fome, foram torturados e assassinados. Apesar dessas aflições, os comunistas não conseguiram tirar deles a fé, a compaixão ou a paz interior conquistada por meio da realização espiritual. Eles podiam, apenas, dominar a realidade exterior.
O que é significativo?
A maioria de nós, neste país abundante e acolhedor que é o Brasil, não se depara com desafios tão dramáticos. Ao invés disso, somos desafiados a encontrar o que é realmente significativo em nossas vidas tão atarefadas e descobrir o que verdadeiramente é benéfico em nossas interações com a família, com aqueles que amamos, com as pessoas com quem trabalhamos e encontramos.
Sob o ponto de vista budista, nada supera a importância do uso deste nascimento humano precioso para reconhecermos a inabalável natureza absoluta da mente. Esse reconhecimento instiga confiança e poder para enfrentar os acontecimentos efêmeros, tanto internos quanto externos. O caminho para o conhecimento da natureza da mente depende de nossos esforços para beneficiar os demais. Cada vez que colocamos de lado nossas tendências autocentradas para trabalhar pelo bem-estar dos outros, purificamos alguns dos obscurecimentos usuais da mente e aumentamos nosso mérito.
Integrando o caminho espiritual com a vida cotidiana
A purificação e geração de mérito constituem o caminho para a iluminação e podemos encontrar constantes oportunidades para integrá-las às nossas atividades cotidianas. As pessoas, em geral, queixam-se de que não têm tempo para fazer prática formal. Entretanto, qualquer dia pode ser estruturado como uma sessão de meditação prolongada.
• Ao acordarmos pela manhã, nos alegramos com o fato de termos mais um dia para consumar a prática espiritual.
• Estabelecemos uma motivação pura e forte para deixar de prejudicar os outros por meio de nossas ações do corpo, fala e mente e para beneficiá-los como pudermos.
• Durante o dia, verificamos a nossa mente – mesmo quando estamos conversando ou ocupados com atividades – para ver se essas ações advêm de uma intenção pura ou de venenos como o egoísmo, o orgulho, a inveja e a raiva. As ações ou palavras podem ser exatamente as mesmas, mas a motivação positiva ou negativa por trás delas determinará seus resultados cármicos.
• À noite, antes de dormir, refletimos sobre o nosso dia. Se encontrarmos momentos em que fracassamos em seguir nossas boas intenções, podemos purificá-los. Invocamos um ser iluminado como nossa testemunha, reconhecemos nossa falha, geramos remorso por tê-la cometido, fazemos o compromisso de não repeti-la e recebemos a purificação visualizando que luz se irradia de nossa testemunha iluminada, nos permeia e purifica a negatividade.
• Também relembramos os momentos em que criamos mérito com nossas ações, nossa comunicação e intenções positivas. Imaginamos esse mérito se expandindo e formando uma vasta oferenda que se dissolve nas mentes de todos os seres por todo o universo.

Praticantes secretos

Do mesmo modo que uma pessoa, ao acender uma vela, fornece luz para todos que estão no mesmo ambiente, a dedicação do mérito que geramos individualmente aumenta qualidades positivas – prosperidade, longevidade e felicidade – para todos os seres.
Os ensinamentos de Buda nos permitem consumar uma transformação através da prática espiritual sem nos sentarmos numa almofada, sem anunciarmos nossa crença para os outros, sem religiosidade externa. Internamente, treinamos nossa mente e nos tornamos praticantes secretos no caminho à iluminação.

8.29.2012

Haikai

vento de inverno
espalha por ai
flores de ipê

8.06.2012


Escolhendo os copos para a cerveja
Agachado entre as prateleiras
Olha um, olha outro
Vejo que ele pensa no futuro
Em qual sua alegria será maior
Qual deles impressionaria mesmo
Ele sentia o mundo pequeno
O mundo era um ponto
O tempo todo era assim
Ele sabia de tudo isso
segurando os copos
e indeciso pensando na doçura da vida

3.27.2012

Conclusão da Meditação

Ao fazer meditações lamrim*, é importante saber claramente a condição mental que você quer chegar como a conclusão da meditação. Textos lamrim descrevem o objetivo de cada meditação, e queremos garantir que nossa mente chegue a essa conclusão e não a uma conclusão incorreta ou irrelevante.




Por exemplo, ao meditar sobre as desvantagens do pensamento centrado no ego, nossa mente pode distorcer essa meditação e concluir: “sou uma pessoa horrível por ser tão egoísta”. Essa é a conclusão errada que se chega com essa meditação. O Buda não ensinou as desvantagens do centramento no ego para que ridicularizemos a nós mesmos.



Se você meditar em um tópico lamrim e chegar a uma conclusão incorreta, a meditação não foi feita corretamente. No caso acima, pensar “sou uma pessoa ruim por ser tão egoísta”, indica que não compreendemos o objetivo da meditação e provavelmente caímos em um velho hábito de nos colocarmos para baixo. Pare e pergunte a si mesmo:



“Qual conclusão o Buda quer que eu chegue a partir dessa meditação?”. Ele quer que eu tenha certeza que a mente centrada no ego é o verdadeiro “inimigo”, que destrói minha felicidade. O centramento no ego não é uma parte intrínseca de mim; não é quem eu sou. Trata-se de um pensamento incorreto, mas profundamente enraizado, que cria problemas para mim. Posso me libertar disso. Já que quero ser feliz, vou compreender essa atitude egoísta pelo que ela é, e vou parar de seguí-la! Em vez disso, vou cultivar amor e compaixão por todos os seres.”



Essa é a conclusão que você quer chegar.

Thubten Chodron

3.09.2012

Ryokan, mone zen e poeta.

Riôkan, monge e poeta zen "Daigù Riokan, da Escola Soto Zen "monge-poeta deixou como precioso legado um grande número de poemas: são cerca de mil e quatrocentos poemas em estilo japonês e outros quatrocentos e cinquenta em estilo chinês, além de cem hai-kais e um epistolário. São poemas que fazem desse simples itinerante, um dos grandes nomes da literatura mundial. Mas talvez o seu exemplo maior esteja na sua simplicidade de vida, no seu amor aos outros, na sua paixão pela lua e pela natureza, no seu amor às crianças e ao sakê. Em síntese, nas pequenas e singelas coisas que traduzem a magia do cotidiano", escreve Faustino Teixeira, professor do PPG em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). É também membro do ISER-Assessoria do Rio de Janeiro.




Eis o artigo.



“Se quer conhecer

o verdadeiro coração

deste monge,

escuta a voz do vento

sob o céu estrelado”

(Riôkan)



Como indica com acerto Giuseppe Jisô Forzani, em sua obra sobre a filosofia japonesa (Torino, 2006), o zen budismo não é propriamente uma filosofia em sentido teorético ou sistemático, mas mais uma “trama existencial”, com traços religiosos, filosóficos e experienciais intimamente relacionados. O zen é sobretudo um “posicionamento de fundo nos confrontos da vida”, onde a prática é o exercício mesmo da vida, ressignificada pela experiência contemplativa, de modo a favorecer a percepção viva da unidade de fundo que preside a existência humana.



Um dos caminhos mais precisos para se acessar o universo zen é através das narrativas de seus mestres, monges e poetas. São impressionantes histórias de vida, tecidas por humildade, capacidade de acolhimento e hospitalidade e, sobretudo pela generosa dinâmica de compaixão universal. Um desses belos exemplos de vida podemos encontrar no monge e poeta Daigù Riokan, da Escola Soto Zen, que viveu no Japão entre os anos 1758 a 1831. Ele vem hoje reconhecido com um dos grandes expoentes da literatura japonesa, como poeta e mestre da simplicidade. O seu nome vem lembrado por escritores e poetas japoneses, como no caso de Kawabata Yasunari (1899-1972), prêmio nobel de literatura em 1968, que o citou cinco vezes em seu discurso durante a cerimônia de recebimento desse prestigioso benefício. Na visão de Luigi Soletta, essa admiração japonesa pelo “monaco pazzo”, como também vem reconhecido, traduz um desejo de redescobrir as próprias raízes culturais e espirituais, num tempo marcado pela opacidade, intransparência e incerteza. É um monge poeta que aponta para um horizonte distinto do apresentado na sociedade de mercado, pontuada pela lógica da produtividade e da eficácia a todo custo. Traz consigo um ideal de simplicidade, de alegria, gratuidade e amor à criação, de generosidade e compaixão. Há que reconhecer que, para alem do distante arquipélago japonês, esse poeta-monge tem muito o que oferecer e comunicar a todos nós.



Ryôkan nasceu na vila portuária de Izumosaki, na região de Echigo, atual província de Niigata, no Japão, em 1758. Seu pai, Inan Yamamoto, era um personagem importante e culto, com singular tarefa na administração de sua cidade. Sua mãe, Hideko, provinha da ilha de Sado. Riôkan era o mais velho dos filhos, tendo adquirido o nome de Eizo em seu nascimento. O destino que dele esperavam era o de seguir os passos do pai na administração pública, o que não ocorreu. Desde muito cedo o jovem Eizo manifestou grande interesse pela leitura. Naquela ocasião, o processo de aprendizado se dava em casa ou nos templos budistas. Isso ocorreu com Eizo (Riôkan), que aos 12 anos ficou sob a responsabilidade de Ômori Shiyô (1736-1792), com quem se aplicou ao estudo dos clássicos chineses, sobretudo Confúcio. Talvez tenha começado nesse tempo o seu interesse em favor do crescimento espiritual e de insatisfação com o modo de vida secular.



Por volta dos dezoito anos passa por uma experiência novidadeira. Com o olhar voltado para a bela ilha de Sado, terra natal de sua mãe, ouve o badalar do sino do templo de Kôshôji, mas aquele som ecoou de forma distinta em seu coração, como jamais havia sentido, proporcionando-lhe grande emoção. Nascia naquele instante sua vocação de monge budista, que se concretiza em julho de 1775, quando deixa a casa paterna para entrar no templo de Kôshôji, da tradição Soto Zen. Como ele mesmo escreveu, “muitos homens se tornam monges e depois praticam o Zen. Mas eu pratiquei o Zen por muito tempo, antes de me tornar monge”. É nesse momento que recebe o nome de Riôkan, que significa “bom e muito generoso”, passando a receber o aprendizado de Mestre Genjô Haryô. Ali permanece por cerca de quatro anos, transferindo-se depois para o templo de Entsùji (na atual província de Okayama), sob a orientação de Mestre Kokusen Dainin (1723-1791). Tratava-se de um dos mais importantes mestres Zen de seu século. A empatia entre mestre e discípulo logo aconteceu. Era o encontro do jovem monge com um grande mestre, que por sua vez reconhece os dons incomuns do discípulo. Esteve ali nesse templo, em profundo aprendizado, por cerca de doze anos. A disciplina era bem rígida, com o dia começando às três horas da manhã e finalizando por volta da vinte e uma horas. Apesar da riqueza dos livros e textos sagrados colocados à disposição no templo de Entsùji, o Mestre Kokusen, na linha da tradição Zen, insistia na centralidade da prática: da experiência particular, do aprendizado singular em contato com o mundo concreto. Durante um curso dado por Kokusen sobre o Shôbôgenzo de Dôgen (1200-1253), essa grandiosa obra do fundador da Escola Soto no Japão, ocorreu uma experiência reveladora para o jovem Riôkan. A obra era para ele, mais do que um ojbeto de estudo, mas a possibilidade concreta de colocar em prática a disciplina Zen. Veio despertado, sobretudo, pelo apelo em favor do amor, presente no texto de Dôgen, Ai Go (Palavras de Amor):



“Durante a nossa inteira existência, com a nossa força de vontade, torna-se necessário pronunciar palavras de amor. De geração a geração, de existência em existência, não se esquecer jamais de pronunciar palavras de amor. Graças a tal florescimento, os inimigos se reconciliam e os homens sábios e virtuosos tornam possível a paz. Quando alguém recebe diretamente palavras de amor, o seu rosto se ilumina de alegria e o seu coração de contentamento”.



Aos 32 anos de idade, Riôkan vem por Kokusen nomeado responsável pelos monges do templo Entsùji, e um ano depois, em 1791, recebe de seu mestre a inka, ou seja, o reconhecimento de sua maturidade espiritual e a permissão para a difusão de seu pensamento. Como sinal desse novo momento de seu Caminho (Via), ganha o nome de Tai Gu (Grande Idiota), recebendo igualmente de seu mestre um bastão em madeira pulida de glicínia, em forma de montanha. É o bastão que o acompanhará por toda a vida.



Após esse longo período de aprendizado, tem início os anos de sua peregrinação. Retorna à sua região natal, e por oito anos busca encontrar um lugar para acolher sua vocação de monge mendicante. Circula pela vila de Gomotô, antes de encontrar guarida no eremitério de Gogo An, na montanha Kugami, nas redondezas de Izumosaki. Ali reside por cerca de doze anos. Em local de admirável atmosfera, Riôkan reafirma sua vocação de contemplativo. São por ele considerados os anos mais felizes de sua vida, quando alcança sua maturidade espiritual e artística. A ocasião faz irradiar de seu coração a veia poética que sempre o marcou:



“Na sombra das árvores

da montanha Kugami

nessa cabana

gostaria de viver minha velhice”.



O seu estilo de vida simples, pontuado por lindos traços de gratuidade brota vivo de sua poesia:



“Desde quando cheguei a este lugar

muitos anos se passaram.

Quando estou cansado, descanso;

quando estou bem, pego as sandálias e caminho.

Não me preocupo com o louvor dos outros,

nem me lamento de seu desprezo.

Com este corpo, recebido dos pais

abandono-me ao meu destino,

alegremente”.



O projeto maior de sua vida estava na busca e na itinerância. Não se conformava em ficar estabelecido num único lugar. O seu coração era dotado ao movimento, sempre disponível ao suave canto das coisas:



“Nascido para ser monge itinerante,

como podia fixar-me um longo tempo.

Tomei o meu cantil, dei adeus ao mestre,

contente de partir para outros cantos.

De manhã, buscava o alto das montanhas,

à noite, atravessava as sombrias correntes do mar.

Basta uma só palavra para desfalecer,

prometi não deter-me por toda a vida”.



“Desde jovem, deixei tintas e pincel,

desejoso de seguir a Via dos Sábios.

Com um cantil e uma tigela,

peregrinei por muitas primaveras.

Voltando à região natal, vivo sozinho,

numa cabana sob as montanhas.

O canto dos pássaros é a minha música;

As nuvens do céu, os meus vizinhos.

Na água que brota da rocha

lavo os meus velhos panos.

Os pinheiros e os carvalhos da montanha

fornecem-me a lenha.

Na tranqüilidade e na paz

passarei os meus dias,

por toda a vida”.



Em seu ideal despojado de vida eremítica e mendicante, Riôkan pautava-se por três grandes objetivos: a meditação, a liberdade interior e a compaixão, bem na linha dos grandes mestres que o inspiraram desde sempre: Buda Sakyamuni, Bodidarma e Dôgen. Como síntese de seu ensinamento, uma vida simples, desapegada e preenchida de dom e compaixão:



“Minha vida é simples,

confiada ao querer do Céu.

Três porções de arroz no alforje,

um feixe de lenha na lareira.

Nenhum traço de ciência ou ignorância:

fama e riqueza não são senão poeira.

Chove esta noite em minha cabana;

estendo as pernas ao meu prazer.



Livre das paixões, me aconchego contente;

nada pode apagar os meus desejos.

Um pouco de verdura basta para a minha fome,

uma veste para agasalho no inverno.

Quando caminho, seguem-me os cervos,

canto e as crianças respondem-me em coro.

Lavo o meu rosto sob a rocha,

conforto-me com os pinheiros da montanha”.



Não precisava de muito para ser feliz, mas das pequenas e singelas coisas do cotidiano:



“Minha casa esconde-se na floresta.

A cada ano, a hera se avoluma sempre mais.

Não me chegam as notícias do mundo,

sinto apenas o canto dos mateiros.

Exposto ao sol, remendo minhas vestes;

contemplo a lua, canto hinos sagrados.

Este é o meu conselho:

poucas coisas bastam para ser feliz”.



A doçura era um outro traço de sua vida, que se irradiava como um perfume e vinha reconhecida por todos, mas sobretudo pelas crianças, que o circundavam a todo momento:



“Todos os dias, sem exceção,

vou jogar com as crianças.

Trago duas ou três bolas em meu bolso;

sou um homem inútil, mas feliz,

nesta paz primaveril”.



O segredo de sua paz de espírito estava, talvez, na diuturna prática da meditação, tecida ao longo da sua vida. Passou pelo duro exercício da ascese e da purificação, de superação dos apegos e da busca serena da “Grande Morte”, ou seja, da superação do eu egocêntrico e da afirmação do Si fundamental, que habita o fundo do coração. Tinha viva consciência da impermanência de todas as coisas. Dizia: “Como o invólucro de uma cigarra, este mundo aparente é transitório”. Tudo é como uma nuvem branca que passa, como um eco que ressoa e depois desaparece. Junto à consciência da impermanência, a alegria de um coração que se doa: “Se o coração é puro, todas as coisas são puras”. Livre dos apegos e animado pela consciência da Kênose, vibra em seu ser o apelo em favor do outro. Dizia num lindo poema: “Se a minha veste fosse tão larga, gostaria de cobrir todos os sofrimentos que habitam o mundo”. Há lindas histórias sobre essa sua prática efetiva em favor dos outros. Numa delas, relata-se seu encontro com um mendicante numa fria manhã de outono. Tomado de compaixão por ele, reparte o pouco de arroz conseguido nas suas andanças, e doa o seu kimono. Assim firmava-se sua alegria de viver.



Depois de passar doze anos no eremitério de Gogo An, reside um período no santuário xintoísta de Otogo, e relata em poema:



“Desde rapaz estudei literatura,

mas não me tornei um mestre:

pratiquei também o Zen,

mas não cheguei a transmitir a lâmpada.

Vivo agora numa cabana,

junto a um templo xintoísta.

Em metade, padre xintoísta,

em metade, monge budista”.



Aos sessenta e nove anos, em 1826, transfere-se para a vila de Shimazaki, numa pequena casa para ele construída por seu amigo Kimura Motoemon. Depois de duas décadas de vida eremítica, transcorre seus últimos quatro anos junto aos seus queridos. Trata-se de um período que dá remate à sua peregrinação espiritual no caminho Zen. Nesse momento derradeiro ocorre uma nova luz em sua vida, quando se encontra com a monja Teishin, no outono de 1827. Nasce entre os dois uma grande amizade, que será cantada em muitos poemas. Os dois eram poetas. A entrada de Teishin na vida de Riôkan, na plena flor de seus vinte e nove anos, significou um verdadeiro dom na vida do monge-poeta e um grande conforto para a sua velhice. Em poema dedicado a Teishin, canta Riôkan:



“Não tenho nada a te oferecer:

recorde-me de mim,

cada vez que olhar

a flor de lótus

no pequeno vaso”.



“Se o teu coração

permanece constante

como a hera,

viveremos unidos

por mil gerações”.



O monge Riôkan adoece em abril de 1830, e seu estado de saúde foi aos poucos se agravando. Seguindo o ritmo natural das coisas, foi se apagado serenamente, findo a falecer no dia 6 de janeiro de 1831, com a idade de setenta e quatro anos. Seguindo o caminho dos grandes mestres Zen, morreu em posição de meditação. Morreu sereno, como expresso num tradicional Hai-Kai:



“Mostrando o dorso,

mostrando a face,

caem as folhas”.



Alguns dias antes de sua morte, o monge-poeta escreveu com sua bela caligrafia, um poema a seu amigo Yamada Tokô, também lembrada pelo grande escritor japonês, Kawabata Yasanari:



“Como recordação,

quero deixar

as flores da primavera,

o canto do cuco de verão,

as cores do outono”.



Esse grande monge-poeta deixou como precioso legado um grande número de poemas: são cerca de mil e quatrocentos poemas em estilo japonês e outros quatrocentos e cinquenta em estilo chinês, além de cem hai-kais e um epistolário. São poemas que fazem desse simples itinerante, um dos grandes nomes da literatura mundial. Mas talvez o seu exemplo maior esteja na sua simplicidade de vida, no seu amor aos outros, na sua paixão pela lua e pela natureza, no seu amor às crianças e ao sakê. Em síntese, nas pequenas e singelas coisas que traduzem a magia do cotidiano.

2.23.2012

A Verdadeira Era das Trevas

A Verdadeira Era das Trevas

por Miguel Berredo 22/02/2012


Por Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche

“The Buddhist Channel”, 30 de janeiro de 2012

Himachal Pradesh, India



Algumas pessoas dizem que a era das trevas, a era do vício – kaliyuga (o último dos quatro estágios que o mundo atravessará como parte do ciclo dos yugas descritos nas escrituras indianas), está acontecendo agora, ou no mínimo, se iniciará em breve. Alguns até mesmo temem que no final de 2012, o mundo do modo como o conhecemos, irá terminar.



Mas, o que determina se uma era é das trevas ou de ouro? Quais os sintomas e sinais? Terremotos, um céu púrpura, atividades meteóricas, estes não são presságios do juízo final, como nos fizeram crer.



Do mesmo modo, querubins voando, uma economia proeminente, liberdade de informação e tempos pacíficos não são necessariamente sinais de uma era de ouro.



A era de ouro ocorre quando as pessoas valorizam sentimentos como a empatia e o perdão, quando têm disposição para compreender o ponto de vista dos outros e se sentem contentes com o que possuem.



Quando tais valores são sistematicamente sabotados, então se pode dizer que o amanhecer do dia do juízo final já começou. Quando olhamos um mendigo inofensivo como sendo uma praga e invejamos os bilionários que destroem o planeta estamos contribuindo para o início do fim.



Como o Buda ensinou, tudo depende de causas e condições. Eras das trevas e eras de ouro não são uma exceção. Elas não são predestinadas, nem imprevisíveis ou caóticas.



O destino é algo condicionado. Nosso próprio “eu” determina tais causas e condições. Você pode criar seu destino, suas escolhas são o seu destino. Aquilo que somos e como somos nesse momento depende daquilo que fizemos no passado. E o que seremos no futuro depende do que somos e como somos agora.



Sakyamuni com seus pés de lótus, pode aproximar-se da sua porta e oferecer sua tigela, mas se continuarmos obcecados por relógios Patek Philipe, fama e amigos, ou por um abdômen malhado, então a verdade do Buda irá nos incomodar, se tornará uma verdade inconveniente.



Muito embora possamos estar no meio da Kaliyuga – sujeitos a uma infinidade de causas e condições de uma época de escuridão, facilmente distraídos e presos a pensamentos ligados a nossa própria auto-preservação e aspirando encontrar referenciais em valores materialistas ou consumistas – podemos tirar vantagem dessa situação.



Diz-se que durante os tempos de degenerescência a compaixão dos Budas e dos Bodisatvas se torna ainda mais fortalecida. Alguém espiritualmente capacitado pode tirar proveito dessa situação. A era da escuridão pode ser como um lembrete da urgência e da preciosidade do Buda, do Darma e da Sanga.



Como seres que dependem de condições, temos que buscar a luz, e cultivar as condições que nos tragam luz. Precisamos constantemente nos lembrar do oposto do materialismo. Para isso, precisamos da imagem do Buda, do som do Darma, e da estrutura da Sanga.



Nos últimos anos perdemos algumas das maiores manifestações do Buda, como Kyabje Trulshik Rinpoche, Mindroling Trinchen Rinpoche e Penor Rinpoche, que foram grandes inspirações e lembranças. Mas, embora essas manifestações tenham se dissolvido, tenha em mente que a sua compaixão desconhece o significado das limitações.



Dentro do espírito de onde há uma demanda, há uma oferta, devemos ter aspirações e anseios de que as manifestações dos Budas e Bodisatvas nunca cessem, e – usando um termo da moda – que seus renascimentos sejam rápidos.



Mas tal renascimento não deve se limitar à figura de uma criança tibetana, criada no interior da tradição e de uma cultura particular. Podemos aspirar que os Budas renasçam de todas formas, mesmo como algo aparentemente tão insignificante como uma brisa, para nos lembrar de valores como amor, compaixão e tolerância.



Devemos gerar um campo magnético para que miríades de manifestações do Buda possam surgir e não apenas tulkus que slata de trono em trono ou que dirigem um Rolls Royce, produtos muitas vezes de um nepotismo religioso.







Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche, também conhecido como Khyentse Norbu, é um lama butanês, cineasta e escritor. Seus dois filmes mais importantes são A Copa (1999) e Viajantes e Mágicos (2003). Ele é o autor do livro “O Que Faz de Você Ser Budista?”.



Tradução Brenda Neves. Revisão Letícia Ramos, Miguel Berredo e Carmen Jinpa.

12.26.2011

Ryōkan Daigu é uma das figurinhas mais lendárias e simpáticas do zen japonês; uma espécie de eremita e errante, um tanto avesso à vida sacerdotal, vivendo em sua cabaninha de telhado de palha. Nome de monge bem dado ("grande tolo com um bom coração"): Ryōkan gostava de tomar umas biritinhas com os camponeses da vizinha...nça, ou então sozinho, escrevendo poemas em sua cabana - pelos quais ficou conhecido, mais tarde. Também gostava de brincar com a criançada, e conta-se que muitas vezes esquecia de fazer a sua ronda de esmolas, de tão entretido que estava - e ficava sem comer. Seu professor realmente soube escolher um nome-do-dharma à altura. Estes são os "59 itens que Ryōkan compilou para ter o comportamento à altura de um monge budista, lembrando, como mestre Chao-chou dizia, o budismo não é o que a pessoa prega ou fala, mas o que faz. É notável que a maioria de suas auto-impostas advertências estão ligadas ao ato de falar [....]" "Tomar cuidado para: - não falar demais; - não falar rápido demais; - não falar sem alguém perguntar; - não falar gratuitamente; - não falar com as mãos; - não falar sobre assuntos mundanos; - não retorquir rudemente; - não discutir; - não sorrir condescendentemente às palavras de outros; - não usar expressões chinesas elegantes; - não se vangloriar; - evitar falar diretamente; - não falar com ar de quem sabe tude; - não pular de um tópico para outro; - não usar palavras enfeitadas ou pomposas; - não falar de eventos passados que não podem ser alterados; - não falar como um pedante; - evitar perguntas diretas; - não falar mal dos outros; - não falar grandiloquentemente da iluminação; - não fazer bagunça quando bêbado; - não falar de forma desprezível; - não gritar com crianças; - não tecer histórias fantásticas; - não falar quando zangado; - não deixar subentender nomes importantes; - não ignorar as pessoas a quem você está se dirigindo; - não falar santimonialmente dos deuses ou dos budas; - não usar discurso adocicado; - não usar discurso adulador; - não falar de coisas das quais você não tem conhecimento; - não monopolizar a conversa; - não falar de outros pelas costas deles; - não falar convencidamente; - não denegrir os outros; - não cantar rezas ostensivamente; - não reclamar da quantidade da doação; - não dar sermões muito eloquentes; - não falar afetadamente como um artista; - não falar afetadamente como um mestre do chá; - oferecer incenso e flores para os budas; - plantar árvores e flores, limpar e aguar o jardim; - regularmente usar moxa para as pernas; - evitar peixes oleosos; - selecionar comidas leves e evitar comidas gordurosas; - não dormir demais; - não comer demais; - não dar uma cochilada muito longa à tarde; - não ficar exausto; - não ser negligente; - não falar quando você não tiver nada a dizer; - não esconder nada em seu coração; - sempre beber o saquê quente; - raspar sua cabeça; - aparar as unhas; - escovar os dentes e usar um palito de dentes; - tomar banho; - manter sua voz clara e nítida." "[....] Mestre Ryōkan estava sempre esquecendo as coisas. Um número de cartas a seus amigos sobreviveu, cheia de desenhos de objetos que ele havia esquecido em algum lugar e lhes perguntando se eles haviam visto os objetos em questão. Às vezes ele mendigava na mesma casa, duas vezes no mesmo dia, tendo esquecido sua visita anterior e era repreendido pela dona da casa por ser cobiçoso. Aqui está uma outra lista que ele fez: Coisas para levar com você: chapéu de algodão, toalha, tecido, papel, leque, moedas, bolinhas de gude e bolas de jogar. Necessidades: chapéu de bambu, material para a perna (como uma meia), luvas, cinto, bastão, manto pequeno. Para peregrinações: roupas, capa de chuva de palha, tigela, saco. Lembrete: tenha certeza de ler isto antes de sair ou você vai ficar em apuros!" entre aspas: da revista Flor do Vazio, ano 7 vol. 1, verão de 2003; pg. 72

11.29.2011

Meditação

MEDITAÇÃO


por Dudjom Rinpoche



Uma vez que tudo se origina na mente, sendo esta a causa raiz de toda a experiência, seja "boa" ou "ruim", primeiro é necessário trabalhar com sua própria mente, não deixá-la se perder errantemente . Corte o desnecessário acúmulo de complexidade e fabricações que acolhem confusões na mente. Corte o problema pela raiz, por assim dizer.



Permita-se relaxar e sentir alguma amplitude, deixando apenas a mente ser, tranquilizar-se naturalmente. Seu corpo deveria ficar parado, a fala silenciosa e a respiração como ela é, fluindo livremente. Aqui, há uma sensação de se soltar, desdobrar-se, deixar-se ser.



Com o que este estado de relaxamento se parece? Você deveria ficar como alguém depois de um dia de trabalho muito duro, exausto e pacificamente satisfeito, a mente pronta para descansar. Algo se ajeita ao nível intestinal e sentindo o descanso em seu intestino, você começa a experimentar uma leveza. É como se você estivesse derretendo.



A mente é tão imprevisível - não há limite para a criação fantástica e sutil que surge, ou seus humores e aonde ela vai levar você. Mas você também pode experimentar um estado lamacento e semi-consciente à deriva, como se houvesse uma cobertura sobre sua cabeça - uma espécie de torpor de sonho. Este é um modo de quietude, nomeadamente estagnação, uma cegueira sem mente, turva.



E como você sai desse estado? Alerte-se, endireite as costas, expire o ar viciado para fora de seus pulmões e direcione sua atenção para o espaço claro a fim de trazer frescor. Se você permanecer nesse estado estagnado você não vai evoluir, por isso quando este revés surge, limpe-o de novo e de novo. É importante desenvolver a vigilância, permanecer alerta com sensibilidade.



Assim, a consciência lúcida de meditação é o reconhecimento tanto de imobilidade como de mudança e é a clareza tranquila de pacificamente permanecermos em nossa inteligência básica. Pratique isto, pois só realmente fazendo-o que se experiencia a fruição ou se começa a mudar.



Ver em Ação



Durante a meditação a mente de alguém, estando uniformemente estabelecida em seu próprio modo natural, é como água parada, serena, sem ondulação ou vento; e quando qualquer pensamento ou mudança surge naquela quietude, se forma como uma onda no oceano, desaparecendo nele novamente. Deixada naturalmente, se dissolve, naturalmente. Seja qual for a turbulência da mente que irrompa - se você deixar que assim seja - ela por si própria irá extinguir-se, liberar-se; assim a visão a que se chega através da meditação é que tudo o que aparece não é outra coisa senão a auto exibição ou projeção da mente.



Ao continuar na perspectiva dessa visão nas atividades e eventos da vida cotidiana, a apreensão da percepção dualista do mundo como realidade sólida, fixa e tangível (que é a causa raiz de nossos problemas) começa a afrouxar e se dissolve. A mente é como o vento. Ela vem e vai, e através de certeza crescente nessa visão, começa-se a apreciar o humor da situação. As coisas começam a ser percebidas um pouco como irreais, e o apego e a importância que se dá aos eventos começam a parecer ridículos ou pelo menos mais leves.



Assim desenvolve-se a capacidade de dissolver a percepção, ao continuar o fluxo da consciência de meditação na vida cotidiana, vendo tudo como o jogo auto-manifesto da mente. E imediatamente após a meditação sentada, a continuação dessa consciência é ajudada ao fazer aquilo que você tem que fazer com calma, tranquilamente, com simplicidade e sem agitação



Assim, em um sentido, tudo é como um sonho, ilusório, mas mesmo assim com humor continua-se fazendo as coisas. Se você estiver andando, por exemplo, sem solenidade ou auto-consciência desnecessários, alegremente caminhe em direção ao espaço aberto da verdade tal como ela é. Quando você come seja o reduto da verdade, do que é. Ao comer, alimente as negatividades e ilusões na barriga do vazio, dissolvendo-os no espaço; e quando você estiver urinando considere que todos os seus obscurecimentos e bloqueios estão sendo limpos e lavados.



Até o momento eu contei-lhes a essência da prática resumidamente, mas é preciso perceber que enquanto nós continuamos a ver o mundo de uma maneira dualista, até que estejamos realmente livres do apego e da negatividade e tenhamos dissolvido todas as nossas percepções exteriores na pureza da natureza vazia da mente, ainda estamos presos no mundo relativo de "bom" e "ruim", "ações positivas e negativas"; devemos respeitar essas leis e estar conscientes e responsáveis por nossas ações.



Pós-Meditação



Após a meditação sentada formal continue essa percepção luminosa e ampla nas atividades cotidianas, em tudo, e gradualmente a consciência será reforçada e a confiança interna irá crescer.



Levante-se com calma da meditação, não pule imediatamente ou com pressa, mas seja qual for sua atividade, preserve um leve sentimento de dignidade e equilíbrio e faça o que você precisar fazer com tranquilidade e relaxamento de mente e corpo. Mantenha a sua consciência centrada luminosamente e não permita que sua atenção se distraia. Continue esse encontro do fio da atenção plena e consciência, apenas siga o fluxo.



Ao caminhar, sentar, comer ou dormir, tenha um sentido de tranqüilidade e presença de espírito. Em relação a outras pessoas seja honesto, gentil e simples; geralmente seja agradável em seus modos e não se deixe arrastar por conversas e fofocas.



O que quer que você faça, de fato, faça de acordo com o Darma, que é a maneira de aquietar a mente e subjugar negatividades.

11.26.2011

father Death Blues

Father Death Blues


Hey Father Death, I'm flying home

Hey poor man, you're all alone

Hey old daddy, I know where I'm going



Father Death, Don't cry any more

Mama's there, underneath the floor

Brother Death, please mind the store



Old Aunty Death Don't hide your bones

Old Uncle Death I hear your groans

O Sister Death how sweet your moans



O Children Deaths go breathe your breaths

Sobbing breasts'll ease your Deaths

Pain is gone, tears take the rest



Genius Death your art is done

Lover Death your body's gone

Father Death I'm coming home



Guru Death your words are true

Teacher Death I do thank you

For inspiring me to sing this Blues



Buddha Death, I wake with you

Dharma Death, your mind is new

Sangha Death, we'll work it through



Suffering is what was born

Ignorance made me forlorn

Tearful truths I cannot scorn



Father Breath once more farewell

Birth you gave was no thing ill

My heart is still, as time will tell.





Allen Ginsberg

A você que está reclamando todo o tempo de não ter nenhum tempo”

A você que está reclamando todo o tempo de não ter nenhum tempo”


Por Sawaki Kôdô Rôshi



As pessoas se mantém ocupados só para evitar o tédio.



Todo mundo reclama que estão tão ocupados que não tem tempo nenhum. Mas porque eles estão tão ocupados? São apenas suas ilusões que os mantém ocupados. Uma pessoa que pratica zazen (meditação) tem tempo. Quando você pratica zazen, você tem mais tempo que todos do mundo.



Se você não for cuidadoso, você começará a fazer um grande escarcéu só para alimentar você mesmo. Você está constantemente com pressa, mas por que? Só para alimentar você mesmo. As galinhas também estão com pressa quando chegam às suas comidas. Mas por que? Apenas para ser comidas por humanos.



Quantas ilusões uma pessoa cria em sua vida? É impossível calcular. Dia vai, dia vem, “Eu quero isso, eu quero aquilo…” Uma simples volta no parque é acompanhada por 50 mil, 100 mil ilusões. Então é isso que significa estar “ocupado”. “Quero estar com você, quero chegar em casa, quero ver você…”



As pessoas estão constantemente sem ar – de correr tão rapidamente atrás de suas ilusões.



Você quer alcançar o nirvana para estar liberado da sua vida atual? Esta é a exatamente a atitude que é chamada de “transmigração”.



O desenvolvimento do transporte tornou o mundo menor. Agora corremos em carros, mas pra onde afinal? Para a corrida! Pisamos no acelerador, só pra matar tempo”.

10.06.2011

em homenagem a Steve Jobs

"Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encon...trei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo - expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar - caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Não há razão para não seguir o seu coração.




Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração." Steve Jobs

9.14.2011

Kodo Sawaki

“Antes que eu penetrasse no Zen,

as montanhas nada mais eram senão montanhas

e os rios nada a não ser rios.

Quando aderi ao Zen,

as montanhas não eram mais montanhas

nem os rios eram rios.

Mas, quando compreendi o Zen,

as montanhas eram só montanhas

e os rios, só rios”



(Sentença Zen)







O grande mestre espiritual, Thomas Merton (1915-1968), dizia que o Zen é “uma das mais misteriosas de todas as espiritualidades”. Mais que uma filosofia ou religião, o Zen é uma “trama existencial”, uma disposição particular, de fundo, com respeito à vida e ao tempo. Trata-se de um modo peculiar de proceder, eminentemente prático, que envolve uma atenção singular ao real, à vida, em toda a sua tessitura concreta e existencial, e a todo instante. Está profundamente vinculado às atividades do dia a dia, descortinando uma “percepção plena do dinamismo e da espontaneidade da vida”.



São muitos os místicos e mestres Zen que animaram a nossa trajetória civilizacional, apontando rumos diferenciados que envolvem delicadeza, cuidado e generosidade. Um dos importantes nomes dessa tradição espiritual foi Kodo Sawaki (1880-1965), conhecido como um “mosteiro itinerante”. Viveu a experiência da impermanência (mujo) desde cedo, tendo perdido os pais em tenra idade. Veio adotado por Sawaki, um irmão de sua mãe, daí a derivação de seu nome, que veio depois acrescentado de Kodo, adquirido por ocasião de sua ordenação como monge. Um nome bem apropriado para o pequeno mestre. Kodo significa “sem casa”. De fato, essa condição de “impermanência” o acompanhou durante toda a sua vida. Afirmava não necessitar de casa, templo, títulos ou mulheres. Nem mesmo de iluminação (satori). A itinerância era a sua morada. Foi um mestre singular, que acolhia, indistintamente, a todos que o procuravam, e tinha o dom da palavra. Ele dizia: “Falo sempre com força e com todo o coração. Em cada palavra ou frase a minha mente e o meu corpo, a minha carne e o meu sangue revelam-se completamente”.



Sua grande inspiração veio de Eihei Dôgen (1200-1253), fundador do Soto Zen no Japão. Para Dôgen, a prática do Zazen (meditação sentada) era a porta da real compreensão do caminho espiritual (Dharma). Dizia a seus discípulos: “Muitos imaginam que é a multiplicação das imagens do Buda ou a elevação de templos que favorecem a expansão do Caminho. Trata-se de um grave erro. Uma choupana ou a sombra de uma árvore são suficientes para a prática do Zazen”. Visando orientar seus discípulos, escreveu entre os anos 1231 e 1253, uma das mais célebres obras de espiritualidade, o shôbôgenzô (o tesouro da visão do verdadeiro dharma). O horizonte almejado era o Dharma de Buda, que se revela em todas as coisas. Escrevia a respeito Dôgen: “Na grande via do Dharma de Buda, um só grãozinho de pó contém todos os sutras do universo”. Esse foi o mestre que pontuou toda a trajetória de Kodo Sawaki. E os mestres são fundamentais para o exercício de realização do Dharma, como o próprio Dôgen reconhecia: “Se não encontras um verdadeiro mestre, é melhor não estudar com efeito o budismo”. É o mestre que favorece a escuta do verdadeiro Dharma.



Na trilha aberta por Dôgen, Kodo Sawaki segue o seu caminho, marcado por um significativo lema: viver a vida cotidiana. Trata-se de um lema recorrente no budismo Zen. Outro dos grandes mestres desta tradição budista, Lin Chi, que morreu no ano de 867, dizia num de seus discursos que não há nada de extraordinário a ser cumprido no budismo, senão viver simplesmente a vida. Em mesma linha de sintonia, dirá o conhecido mestre Daisetz Teitaro Suzuki, um dos introdutores do Zen no Ocidente: “O Zen é viver, o Zen é a vida e viver é Zen”. Num dos ditos clássicos da tradição Zen, de autoria de Wou-men (Wou-men-kouan – Passe sans porte), afirma-se que “o coração cotidiano é o Caminho”. É o rastro que seguiu Sawaki em sua existência e prática, levar a vida com consciência e atenção. Mediante a prática contínua do Zazen, desvendar a maravilha do cotidiano, vivido com gratuidade (mushotoku) e respeito. Para ele, a razão da vida não estava em acumular conhecimentos, mas na atenção diuturna e cuidadosa diante do mistério apresentado a cada momento ao olhar humano. Dizia: “Os homens multiplicam conhecimentos, mas penso que o fim almejado está em poder sentir o som dos vales e olhar as cores da montanha”.



Na tradição budista, todo o acento recai na realidade fenomênica. A reverência feita a uma camélia em flor tem a mesma densidade espiritual que outros atos religiosos como a inclinação feita aos budas. Como mostrou acertadamente, Toshihiko Izutsu, em sua reflexão sobre a filosofia do zen budismo, “o mundo fenomênico não é só a ordem das coisas sensíveis que aparece ao ego empírico ordinário, mas na consciência zen ele vem dotado de uma espécie particular de poder dinâmico que poderia ser adequadamente indicado com o verbo VER”. Desvela-se um olhar que descortina uma dimensão excepcionalmente elevada, para além da atividade discriminante traduzida pelo intelecto relativo do ser humano encerrado na limitada esfera da experiência comum e ordinária. As montanhas manifestam-se como montanhas e os rios como rios.



A verdade está aí, no alcance da visão. Basta saber ver. Ela está em todo canto e em cada coisa. Essa era uma máxima seguida com rigor por Sawaki. A prática do Zazen facultava a educação desse olhar, capaz de captar a profunda unidade que liga o ser humano a todo o universo e a todo o criado. No Zazen deixa-se abandonar o corpo e a mente (shin jin datsu raku), facultando-se o “fluir com a infinita luminosidade” que a todos sustenta. É o caminho que faculta o acesso à subjetividade elemental, à pura subjetividade, para além das dicotomias entre sujeito e objeto. Este deixar cair corpo e mente, na prática do “só-Zazen”, não significa um abandono ou exclusão da existência histórica e social. Esse é um equívoco que deve ser extirpado. Na verdade, o Zazen verdadeiro situa o ser humano ainda mais fundo no seu cotidiano, colocando em ação um modo singular de ser no mundo, facultando a “encarnação auto-criativa e auto-expressiva da natureza-de-Buda”. A consciência de “impermanência” não leva de forma alguma a uma perspectiva de fatalismo ou pessimismo diante da vida, mas a uma “vitalidade sempre maior na busca do Caminho”.



O horizonte apontado por Kodo Sawaki é o mesmo indicado por Dôgen em seu shôbôgenzô: o abandono de si e a doação aos outros. Há que romper todos os apegos e viver a profunda dinâmica da gratuidade, sem finalidade ou escopo (mushotoku). E estar sempre a caminho, sem morada fixa, com o olhar aberto e atento ao mundo da alteridade. Num dos fascículos de seu clássico trabalho, Dôgen asseverava: “Compreender o Caminho de Buda é compreender a si mesmo (jiko); compreender a si mesmo é esquecer a si mesmo; esquecer a si mesmo é deixar-se abrigar por todas as coisas (banpô ni shô seraruru) (...)”. Em profunda sintonia com a perspectiva kenótica proposta por Dôgen, Kodo Sawaki reconheceu de forma profunda como o reconhecimento da impermanência de todas as coisas gera gratuidade e doação. Como sublinhou Gianpetro Fazion, em bela obra sobre o Zen de Kodo Sawaki (Roma, 2003), a “ampla visão da impermanência e do sofrimento universal (duhkha), profundamente penetrada pelo olhar de Buda, favoreceu-lhe (a Sawaki) a capacidade de partilhar uma compaixão amorosa por todas as formas de vida”. Num dos ditos de Sawaki, ele sublinha: “Se alguém abandona o próprio ego, sem pensar em si mesmo, se ele serve, e se devota aos outros, ainda que através de pequenas coisas, como cozinhar na manhã, isto é verdadeiramente grande”. A nobreza verdadeira está justamente nesses pequenos detalhes do cuidado, da delicadeza e do serviço aos outros.



Kodo Sawaki foi um grande mestre Zen, mesmo sem a cobertura de uma formação acadêmica tradicional. Tinha apenas o diploma da escola elementar. Sua linguagem era simples, forte e direta, nutrida pela permanente prática do Zazen. Muitos passaram por sua escola, entre os quais Taisen Deshimaru, que introduziu o Zen na França, no final dos anos 1960. De seus traços espirituais, brilha de forma especial a dinâmica da gratuidade absoluta. Seus ditos guardam uma sabedoria exemplar, como o que segue: “A vida é complicada. Há momentos, como na guerra, onde o fogo cai do céu, e outros onde podemos adormecer, aconchegados, junto à lareira. Há períodos nos quais necessitamos trabalhar mesmo de noite, e outros em que se pode beber o sakê. Buscar realizar essa vida, mediante o ensinamento de Buda, isto é o budismo”.



Ao final da vida, já aos 85 anos, voltou seu olhar para o monte Tagakamine. Esse monte tinha sido objeto de suas observações durante muito tempo, mas agora seu olhar voltava-se para ele com particular intensidade. Ele agora o Via, e parecia indicar a presença do empíreo. Três dias antes de sua morte, no mês de dezembro de 1965, pediu que abrissem a janela de sua cela e disse: “Olha a montanha. A natureza é grande, enquanto os homens ocupam-se de pequenas coisas: em toda a minha vida não encontrei um modo de admirá-la completamente. Mas aquela Tagakamine me observa, do alto de sua grandeza, e parece dizer: ´Kodo, Kodo!`”.

9.13.2011

“Essentials of Spontaneous Prose” (1958)

“Essentials of Spontaneous Prose” (1958)


SET-UP The object is set before the mind, either in reality, as in sketching (before a landscape or teacup or old face) or is set in the memory wherein it becomes the sketching from memory of a definite image-object.

PROCEDURE Time being of the essence in the purity of speech, sketching language is

undisturbed flow from the mind of personal secret idea-words, blowing (as per jazz musician) on

subject of image.

METHOD No periods separating sentence-structures already arbitrarily riddled by false

colons and timid usually needless commas but the vigorous space dash separating rhetorical

breathing (as jazz musician drawing breath between outblown phrases) “measured pauses which

are the essentials of our speech” “divisions of the sounds we hear” “time and how to note it

down.” (William Carlos Williams)

SCOPING Not “selectivity” of expression but following free deviation (association) of

mind into limitless blow-on-subject seas of thought, swimming in sea of English with no discipline

other than rhythms of rhetorical exhalation and expostulated statement, like a fist coming down

on a table with each complete utterance, bang! (the space dash)Blow as deep as you

wantwrite as deeply, fish as far down as you want, satisfy yourself first, then reader cannot fail

to receive telepathic shock and meaning-excitement by same laws operating in his own human

mind.

LAG IN PROCEDURE No pause to think of proper word but the infantile pileup of

scatological buildup words till satisfaction is gained, which will turn out to be a great appending

rhythm to a thought and be in accordance with Great Law of timing.

TIMING Nothing is muddy that runs in time and to laws of time Shakespearian stress of

dramatic need to speak now in own unalterable way or forever hold tongue no revisions (except

obvious rational mistakes, such as names or calculated insertions in act of not writing but

inserting).

CENTER OF INTEREST Begin not from preconceived idea of what to say about image

but from jewel center of interest in subject of image at moment of writing, and write outwards

swimming in sea of language to peripheral release and exhaustion Do not afterthink except for

poetic or P. S. reasons. Never afterthink to “improve” or defray impressions, as. the best writing

is always the most painful personal wrungout tossed from cradle warm protective mind tap from

yourself the song of yourself, blow! now! your way is your only way “good” or

“bad always honest, (“ludicrous”), spontaneous, “confessional” interesting, because not

“crafted.” Craft is craft.

STRUCTURE OF WORK Modern bizarre structures (science fiction, etc.) arise from

language being dead, “different” themes give illusion of “new” life. Follow roughly outlines in

outfanning movement over subject, as river rock, so mindflow over jewel-center need (run your

mind over it, once) arriving at pivot, where what was dim-formed “beginning” becomes sharp—

necessitating “ending” and language shortens in race to wire of time-race of work, following laws

of Deep Form, to conclusion, last words, last trickle Night is The End.

MENTAL STATE If possible write “without consciousness” in semitrance (as Yeats’ later

“trance writing”) allowing subconscious to admit in own uninhibited interesting necessary and so

“modern” language what conscious art would censor, and write excitedly, swiftly, with writing-or-

typing-cramps, in accordance (as from center to periphery) with laws of orgasm, Reich’s

“beclouding of consciousness.” Come from within, out to relaxed and said.

Jack Kerouac, “Essentials of Spontaneous Prose” in Ann Charters, ed., The Portable Beat Reader (New York: Viking, 1992).





--------------------------------------------------------------------------------

8.29.2011

Gary Snyder


Passar um tempo com sua própria mente é algo humilde e expansivo. Descobrimos que não há ninguém no comando, e somoslembrados de que nenhum pensamento dura muito. As marcas dos ensinamentos budistas são a impermanência, a ausência de ego, a inevitabilidade do sofrimento, a interconexão, a vacuidade, a vastidão da mente e a oferta de um Caminho para a realização. Um poema acabado, como uma vida exemplar, é uma breve apresentação, algo único na singularidade, uma expressão completa, e um tipo de troca de presentes nas redes da mente-energia. Na peça no Basho (Bananeira), diz-se que “toda poesia e toda arte são oferendas para o Buda”. Essas várias ideias budistas, em conjunto com o antigo sentido chinês de poesia, são parte da trama que produziu uma simplicidade elegante, a que damos o nome de estética zen.
Tu Fu disse: “As ideias de um poeta deveriam ser nobres e simples”. Nos círculos Ch’an se dizia: “Pessoas incultas deliciam-se no estardalhaço e na novidade. Pessoas cultas deliciam-se no comum”. Essa simplicidade, essa realidade comum, é o que os budistas chamam de quididade, ou tathata. Não há nada especial na realidade, porque ela está toda exatamente aqui. Não é preciso chamar atenção para ela, apresentá-la vividament e exibi-la. Portanto, o tema derradeiro de uma poesia budista “mística” é profundamente comum. Essa elusiva realidade comum que é tão tocante e refrescante, toda revolvida em imaginação e linguagem, é o trabalho de todas as artes. (Os poemas realmente belos são talvez os invisíveis, que não exibem nenhum insight especial, nenhum beleza notável. Mas em verdade ninguém nunca escreveu um grande poema que perfeitamente não tivesse nenhum insight, nenhum desdobramento instrutivo, nenhum prazer sintático — este é apenas um ideal distante.)
Assim, nunca haverá um único tipo identificável de “poesia meditativa”. Apesar do elegante e algo decadente ideal da Simplicidade Zen, o estardalhaço, a novidade e a vulgaridade entusiasmada também são completamente reais. Olhos arregalados, línguas para fora, entradas arrebatadoras, palmas e uivos — todos fazem parte da tradição da prática. E nunca haverá — é o que devotamente se espera — um estilo final e exclusivo de budismo. Continuo buscando poemas que veem o momento, que brincam livremente com o que é dado,
Teasing the demonic
Wrestling the wrathful
Laughing with the lustful
Seducing the shy
Wiping dirty noses and sewing torn shirts
Sending philosophers home to their wives in time for dinner
Dousing bureaucrats in rivers
Taking mothers mountain climbing
Eating the ordinary

[Fazendo graça com o demoníaco
Lutando com o irado
Gargalhando com o sensual
Seduzindo o tímido
Limpando o nariz sujo e costurando camisas rasgadas
Mandando filósofos para casa com suas mulheres a tempo para o jantar
Afogando burocratas nos rios
Levando mães para escalar montanhas
Comendo o comum]
apreciando que tanto possa ser feito neste precioso planeta do samsara.
Texto adaptado da introdução a Beneath a Single Moon: Legacies of Buddhism in Contemporary American Poetry. © Gary Snyder. Leia o texto completo em D/A Magazine

8.26.2011

Identidade persistente

Essa ideia de uma identidade persistente fez você vagar impotente pelos reinos inferiores do samsara por incontáveis vidas passadas. É exatamente isso que agora impede que você e os outros se libertem da existência condicionada. Se pudesse simplesmente largar esse pensamento sobre o “eu”, você descobriria que é fácil ser livre e libertar os outros também.




Se superar a crença em um eu verdadeiramente existindo hoje, você se iluminará hoje. Se superar isso amanhã, se iluminará amanhã. Mas se nunca superar isso, nunca ganhará a iluminação.



Este “eu” é apenas um pensamento, uma sensação. Um pensamento não possui inerentemente nenhuma solidez, forma ou cor. Por exemplo, quando um sentimento forte de raiva surge na mente, com tal força que você quer brigar e destruir alguém, o pensamento raivoso está empunhando alguma arma? Ele poderia liderar um exército? Poderia queimar alguém como o fogo, esmagar como se fosse uma pedra ou levar embora como um rio?



Não. A raiva, como qualquer outro pensamento ou sentimento, não tem existência verdadeira. Não pode nem ser definitivamente localizada em qualquer lugar do corpo, fala ou mente. É como vento no espaço vazio. Em vez de permitir que tais pensamentos selvagens determinem o que você faz, olhe para a vacuidade essencial deles.



Por exemplo, você pode se encontrar repentinamente cara a cara com alguém que você imagina querer te ferir, e surge uma forte sensação de medo. Mas assim que você se dá conta de que a pessoa, na verdade, tem apenas boas intenções em relação a você, seu medo desaparece. Foi apenas um pensamento.



Dilgo Khyentse Rimpoche